"acho que Emerson escreveu algures que uma biblioteca é uma espécie de caverna mágica cheia de mortos. e esses mortos podem renascer, podem voltar à vida quando abrimos as suas páginas." [BORGES, Jorge Luis in Este ofício de poeta]
Segunda-feira, 6 de Janeiro de 2014
Músico da semana: Juana Molina

 

 

 

Juana Molina (01 de outubro de 1962, Buenos Aires) é uma cantora, compositora e atriz argentina. É filha do cantor de tango Horacio Molina e da atriz Chunchuna Villafañe.

Joana Molina cresceu em um ambiente musical, ao seis anos de idade começou a aprender a tocar violão com seu pai, um notável cantor de tango. Em 1976, após o golpe de estado na Argentina, sua família fugiu do país e viveu exilada em Paris até 1981.

Iniciou sua carreira artística em 1988 como atriz de televisão na Argentina, no programa humorístico La Noticia Rebelde (alusão ao filme estadunidense A noviça rebelde. O sucesso de seuas atuações fizeram com que ganhasse seu próprio programa, Juana y sus hermanas (alusão a outro filme americano, Hannah e suas irmãs, de Woody Allen), um quadro sobre o mundo da língua hispânica, pelo qual ela se tornou mais conhecida na América Latina.

Em 1996 ela passou se dedicar à carreira de cantora. As letras em seus álbuns são cantadas em espanhol e acompanhadas por violão acústico, entre outros instrumentos. [ler mais]

 

JÁ DISPONÍVEL NA BIBLIOTECA MUNICIPAL

 

 

Juana Molina arrisca-se a ser ouvida

 

Durante o hiato editorial de cinco anos, Juana Molina viu-se apanhada no campo gravitacional da guitarra eléctrica. "Wed 21" mostra-a a tentar domar o instrumento como método para não repetir os discos anteriores

A música da argentina Juana Molina cresceu discretamente nos auscultadores. Durante muito tempo, a cantora não quis que a vizinhança percebesse aquilo a que se dedicava. “Se me ouvirem a fazer determinadas coisas, ficam conscientes da minha existência e não quero isso. Não quero que pensem em mim”, diz num tom que pode soar a resmunguice (mas não é) e a misantropia (talvez um bocadinho). 
Ainda hoje, prefere que o interior das suas paredes seja imperscrutável. Provavelmente porque, durante três intensos anos, protagonizou a sitcom Juana y sus Hermanas e foi uma actriz idolatrada pela lupa da televisão, popular o suficiente para cada gesto ser observado em câmara lenta. Mas depois fartou-se de ser aquilo que nunca quis ser, fez as contas à vida durante uma gravidez, largou a ficção no pequeno écrã e foi à procura de algo mais real, uma música que começou a escarafunchar dentro de si.
Tinha já 32 anos, uma passadeira vermelha estendida para uma carreira a saltitar entre papéis que nunca deixassem esquecer o original e, afinal, queria antes dedicar-se a uma pop pouco fadada a ser exibida na mesma televisão que beijava cada centímetro de solo em que calcasse os pés. Nas primeiras subidas a palco, tremiam-lhe as pernas e a voz. E o seu público não lhe perdoou a traição quando percebeu que não se tratava de um capricho domingueiro. Não tanto, ainda assim, por Juana ter mudado de vida, mas sobretudo por ter optado por uma via em que recusava a adoração dos seus fiéis. Que poderiam fazer com aquela música, entre a sofisticação electrónica e a crueza tribal nas mãos? “Reagiram muito mal, mas isso já foi há 20 anos”, diz sem saudade.
Juana Molina ainda se sentiu tentada a regressar com as propostas que iam caindo para ressuscitar a personagem que tão assertivamente enterrara. Só uma vez cedeu, ao aceitar a proposta publicitária de uma operadora telefónica. E recomeçaram os convites financeiramente obscenos para não atirar mais terra sobre o passado. Mas não funcionou. Até porque, finalmente, começou a não deixar que a ameaça da curiosidade da vizinhança se sobrepusesse a certos apetites musicais. Wed 21, o seu quinto álbum, traz para a linha da frente a guitarra eléctrica, instrumento que até agora Molina tratava com uma delicadeza que mais facilmente se imagina a acariciar o pêlo de um gato. 
“Antes, só muito nova tinha tocado guitarra eléctrica e estudado jazz”, explica-nos na varanda da Casa Independente, em Lisboa, onde tocou há um par de semanas. “O papel da eléctrica era semelhante ao da acústica. Vivia num apartamento muito pequeno, de uma só divisão, vizinhos por todo o lado, e tocava muito gentilmente.”
Daí que, ao redescobrir agora o instrumento, se tenha sentido na obrigação de rever todas as suas convicções sobre música a acolher ou escorraçar do seu gosto. “Percebi até o mundo do heavy metal, porque não é o mesmo ouvi-lo sem ter tocado”, entusiasma-se. “Finalmente percebi por que o fazem – é o som que nos diz: ‘Faz-me isto’. É curioso porque confirma a ideia de que os instrumentos nos dizem o que fazer com eles.” E uma das coisas que a guitarra lhe deu a entender é que podia tratá-la com menos cautelas: entre o quase silêncio de quem não quer acordar a casa do lado e o exagero de quem chicoteia as cordas sem a memória muscular de que há um amplificador a ajudá-la nesse gesto.
Confusa e perdida
Em 2011, Juana Molina esteve ligada a uma experiência em que teve de repetir para si mesma: “não posso ser uma control freak”. O projecto Congotronics vs. Rockers, que promovia uma ponte entre os grupos renovadores da tradição musical congolesa (Konono nº1 ou Kasaï All Stars) e umas quantas luminárias do universoindie ocidental (Molina e Deerhoof, por exemplo), sugar-lhe-ia muita da energia e da disponibilidade criativa. Sabe que “podia ter assumido a liderança num segundo”, mas precisava mesmo de se refrear – até porque teria sido contra todas as regras de boa etiqueta chamar a si a chefia de algo que não lhe pertencia. Em vez disso, teve de lutar interiormente contra o impulso contínuo de tomar de assalto as operações.
Essa postura foi parcialmente recuperada para Wed 21. Juana Molina teve de aprender a gerir algum desapego da certeza absoluta em cada passo. O novo álbum parte precisamente daí: “Não queria simplesmente fazer o que já tinha feito, sabendo ao mesmo tempo que não me poderia afastar muito daquilo que sou”. Essa foi a regra que se impôs. Tão lata e tão complicada de domar que depois de avançar dez passos numa direcção — “não sei se foi para a frente ou para trás”, admite — teve de retroceder “talvez uns quatro” para sentir que a sua assinatura ainda fazia sentido e não acabara numa espécie de autoexílio criativo, rodeada de paisagens absolutamente inóspitas.
“Sei exactamente como fazer os discos anteriores e podia ter feito outro talvez tão bom, menos bom, ligeiramente melhor, mas dentro da mesma linha. Mas já tinha quatro discos daqueles, por isso fiquei um pouco confusa e perdida.” Ou seja, os dez passos de que Juana nos fala foram uma daquelas fugas cegas que num filme de acção implicaria arranhões na cara, uma queda que a deixasse manca e um precipício como destino final evitado no derradeiro segundo. “Todo o ambiente das gravações foi um pouco assim, sem saber o que estava a fazer”, conta. E as indecisões a acumularem-se de acordo com o mesmo código processual das canções: por camadas. Esta pista entra ou não? Este instrumento, com ou sem? Por isso, confrontada com o pânico de ter de tomar decisões pouco convictas, Molina diz que habitualmente deixa “manter o ‘com’ até já não o suportar mais e depois fica ‘sem’”. “Não sei se é pior arrependemo-nos do que fizemos ou do que não fizemos”, desabafa. A culpa, castigadora, é sempre a mesma: a sensação – e não a certeza – de que pode não estar a arriscar o suficiente. […] [ipsilon.publico.pt]

 



publicado por bibliotecadafeira às 18:26
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