"acho que Emerson escreveu algures que uma biblioteca é uma espécie de caverna mágica cheia de mortos. e esses mortos podem renascer, podem voltar à vida quando abrimos as suas páginas." [BORGES, Jorge Luis in Este ofício de poeta]
Sexta-feira, 16 de Setembro de 2011
Autor da semana: José Saramago

 

A 16 de Novembro de 2002, dia do seu 80º aniversário, José Saramago honrou com a sua presença, o Simpósio, realizado na biblioteca municipal, em que partilhou as suas ideias com António di Pietro e Vasco Graça Moura, sobre a Europa na geografia da história.
Celebrando esta efeméride, a Câmara Municipal promoveu, com a Associação Festival Sete Sóis Sete Luas, a exposição "Saramago nas artes", com a participação
David de Almeida, Júlio Pomar, Armando Passos, Graça Morais, João Caetano, José Santa-Bárbara e Rogério Ribeiro, do espanhol Manuel Estrada, da cabo-verdiana Luisa Queirós e dos italianos António Possenti, Luca Alinari, Paolo Grigò, Massimo Bertolini e Stefano Tonelli e a leitura de textos do Memorial do Convento e do Ensaio sobre a Cegueira, feita por Maria de Medeiros, Marisa Paredes e Laura Morante, com música do Maestro Azio Corghi, interpretada pela flauta de Giuseppe Pelura e pela guitarra de Stefano Cardi.

Registando este dia, José Saramago, escreveu:
" Quando há mais de vinte anos passei por Feira e visitei os seus lugares ilustres, depois sumariamente descritos em Viagem a Portugal, não me esqueci de apontar no meu caderno de notas a impressão que me haviam causado as veneráveis aras do deus Bandevelugo-Toiraeco, uma divindade pagã local que, como sempre sucedeu às potestades, quer as celestes, quer as ctónicas, os antigos moradores do sítio deviam ter importunado com incessantes súplicas de paz, saúde e felicidade, quer dizer, o sal da vida. Estes pequenos deuses perdidos, sepultados sob a poeira do tempo, como o Endovélico dos lusitanos ou o Tongoenabiago dos bracarenses, são, talvez por causa da misteriosa ressonância dos seus nomes, uma constante ameaça ao meu enraizado cepticismo religioso, que, nada mais ouvi-los, começa logo a duvidar... Nessas alturas não consigo impedir-me de pensar que lá por dentro daqueles granitos é capaz de haver muitas mais coisas que o quartzo e o feldspato alcalino... Essa terá sido a razão por que, postado diante dos vetustos altares de Bandevelugo-Toiraeco, também eu roguei que me fosse consentida no resto da vida a parte de paz, saúde e felicidade de que ele me julgasse merecedor, já que, pelos vistos, os deuses nunca chegaram a aprender as aritméticas de uma distribuição equilibrada, isto é, aquelas que, sem mais contas de somar ou subtrair, tendo dado a cada um de nós o justo necessário, não nos regateassem também o justo supérfluo. De um ponto de vista estritamente pessoal, não guardo qualquer motivo de queixa de Bandevelugo-Toiraeco, pelo contrário: não me tirou a saúde que tinha quando nos conhecemos, os conflitos que depois provoquei ou me impuseram nunca me romperam a paz interior, e, quanto à felicidade, o mínimo que direi é que o deus da Feira fez tudo quanto estava em seu poder para que ela chegasse a tempo à minha vida...
Ao invés do que se imagina, a felicidade não é uma coisa só. A felicidade é uma saca de linhagem que contém coisas pequenas e grandes, um pão, um afecto, uma ideia, uma sede de água, a luz de uma vela, uma toalha na mesa, a dobra de um lençol, uma folha de papel escrita, outra por escrever, um ramo de árvore, uma flor de cacto, uma nuvem, o sopro do vento, o passo da chuva, o regresso do sol, uma pedra na mão, o universo inteiro. Por muito cheia que a saca da felicidade nos possa parecer, sempre poderão caber nela mil outras coisas,  e não é raro que o próprio Bandevelugo-Toiareco venha em correria lá de longe, com o ar comprometido de quem se tinha esquecido de algo importante e acode a emendar a falta. Foi esse, precisamente, o caso de agora. E que me trouxe então o deus da Feira que eu ainda não tivesse? Trouxe-me pessoas de talento e estudo, pessoas de espírito que trabalharam e que desse seu trabalho vieram aqui mostrar os frutos, tudo, tanto, só porque cumpri, cumpro ou vou cumprir oitenta anos. Abro pois, agradecido, a minha saca da felicidade e encontro o espaço que nela estava guardado para as obras de Alexandre Radulescu, de Antonio Possenti, de Armanda Passos, de Bartolomeu dos Santos, de David de Almeida, de Graça Morais, de João Caetano, de José Santa-Bárbara, de Júlio Pomar, de Luca Alinari, de Luísa Queirós, de Massimo Bertolini, de Manuel Estrada, de Rogério Ribeiro, de Stefano Tonelli. São pinturas, gravuras, ilustrações em que os mundos dos artistas e o mundo do escritor não só se encontraram e reconheceram, como, assim o creio, se identificaram. Outra forma de encontro, de reconhecimento e identificação entrará também na minha saca da felicidade, a música de Azio Corghi interpretada pela flauta de Giuseppe Pelura e pela guitarra de Stefano Cardi. E como se isto fosse pouco, eis que três grandes actrizes – Laura Morante, Maria de Medeiros e Marisa Paredes – decidiram tomar para si, como se desde sempre fossem suas, palavras que eu havia escrito sem adivinhar que, pela graça suprema das suas vozes, as veria, neste dia, transformar-se em vida. A todos, mil vezes obrigado, sem esquecer o deus Bandevelugo-Toiraeco, que, ninguém mo tirará da cabeça, deu uma ajuda para que todos estes milagres fossem possíveis. É certo que vinha disfarçado de Festival Sete Sóis Sete Luas, mas a mim não me engana. Conheço-o, era ele."

 

 

 

"José e Pilar" é o candidato português aos Óscares

 

O documentário "José e Pilar", de Miguel Gonçalves Mendes, é o candidato português aos Óscares de Hollywwod, informou hoje o Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA).

Co-produzido pelos realizadores brasileiro Fernando Meirelles e espanhol Pedro Almodóvar, que são membros da Academia Americana de Artes e Ciências Cinematográficas, "José e Pilar" é um documentário sobre a vida em comum do escritor e Nobel português da Literatura, José Saramago, e da sua companheira de décadas, a jornalista e tradutora luso-espanhola Pilar del Río.

O filme foi o escolhido para representar Portugal na corrida à nomeação para Melhor Filme Estrangeiro, "por uma comissão composta por representantes de associações do sector, previamente submetida à aprovação da Academia Americana de Artes e Ciências Cinematográficas", refere o ICA,em comunicado. Estreadoem Portugal, Espanha e Brasil, o documentário será distribuído nos Estados Unidos pela Outsider Pictures, disse à Lusa, recentemente, o realizador Miguel Gonçalves Mendes.

Porém, segundo o cineasta, a estreia nos Estados Unidos só deverá acontecerem Abril. Ora, só são candidatos a uma nomeação para os Óscares de 2012 os filmes que estreiam em sala nos Estados Unidos entre 01 de Janeiro e 31 de Dezembro de2011. Apetição pública dirigida ao ICA que foi criada na Internet pedindo que "José e Pilar" fosse o candidato de Portugal a uma nomeação para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro somou, até hoje, 2.439 assinaturas.

Os nomeados para os Óscares de 2012 serão conhecidos a 24 de Janeiro. A cerimónia decorrerá no dia 26 de Fevereiroem Los Angeles, Califórnia. Portugal nunca conseguiu uma nomeação para o Óscar de melhor filme estrangeiro. Em 2010, o candidato de Portugal nesta categoria foi "Morrer como um homem", de João Pedro Rodrigues. [dn.pt]

 

Títulos disponíveis na biblioteca municipal.


NOTA: Brevemente, estará disponível, na biblioteca municipal, o primeiro romance de José Saramago "Clarabóia", que nunca foi publicado. 



publicado por bibliotecadafeira às 17:28
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