Nasceu no Porto em 1971, onde reside. Jornalista desde 1989 recebeu em 1994 o prémio de jornalismo da Lufthansa e em 1996 a menção honrosa dos Prémios Gazeta de Jornalismo do Clube de Jornalismo/ Press Club. […] [instituto-camoes.pt]
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(já disponível na biblioteca municipal)
Há um homem solitário que decide que quer ser famoso. Um “livro grossíssimo” de 1200 páginas, passeado debaixo do braço nos transportes públicos, à espera de ser notado. Há um autor húngaro fugido da segunda Guerra Mundial, um belizenho que conta histórias ainda mais recuadas no tempo. E há o Porto, a glória ou a falta dela, o amor. Há de tudo, mas não há nada. É tudo inventado.
"Uma Mentira Mil Vezes Repetida", o último romance de Manuel Jorge Marmelo, é como as matrioscas, “em que se vai abrindo e vão saindo cada vez mais bonecas lá de dentro”, compara o autor. O narrador, homem solitário, inventa um livro. Inventa Oscar Shindinski, o autor da obra-prima "Cidade Conquistada", que acredita estar amaldiçoado por Marcos Sacatepequez, que escreve o episódio com que o livro abre. As histórias são desfiadas dentro de um autocarro, onde o narrador se senta e espera a glória.
Espera que o notem. Ou que ao menos notem o livro que carrega: um calhamaço, sem nada lá dentro – folhas impressas de apontamentos da internet, despropositadamente alinhadas -, inventado à medida que o abordam. E preenchido com questões da actualidade. Com reflexões.
Sobre a intolerância
Este é um livro sobre a intolerância – “Contra os judeus, primeiro, mas depois a intolerância como traço comum de todos os grandes problemas da actualidade. A que está na origem das guerras religiosas, a intolerância económica, a racial”. Manuel Jorge Marmelo quis fazer um livro sobre isto. Mas fez mais: deixou uma reflexão sobre a celebridade, a necessidade dela (ainda que, mais do que a celebridade, o que o narrador procura, acredita Marmelo, seja companhia), e sobre a literatura (pode ou não o livro ser mais do que a vida?).
É um mundo de mentira, mas não de mentirosos: no fundo, é sobre a solidão, sobre o anonimato indesejado, sobre um homem em busca de alguém que o ouça e o faça sentir gente. Quantos assim passeiam nos transportes públicos diariamente? Mais do que uma inspiração, o autocarro “é uma espécie de máquina literária, produtora de todas as histórias que estão dentro do livro”, conta Jorge Marmelo. “Um pouco como a Madeleine do Proust, aqui é o autocarro o suscitador das histórias.”
Algumas das histórias foram transportadas para "Uma Mentira Mil Vezes Repetida" do blogue que o autor portuense escreve - “São apontamentos da realidade, que deram o colorido do autocarro”, explica Manuel Jorge Marmelo. Foram (e são: a rúbrica “Crónicas do Autocarro” continua a ser actualizada) escritas durante as viagens do próprio autor, também utente dos transportes públicos. Um livro auto-biográfico? “Tem muitas das minhas reflexões sobre o mundo e sobre a literatura. Mas sou um bocadinho menos parvo do que o narrador do livro”. [p3.publico.pt]
Três perguntas a… Manuel Jorge Marmelo
1- O que representa, no contexto da sua obra, o livro «A Mentira Mil Vezes Repetida»?
R- É, espero, o fecho de um ciclo que dediquei àquilo a que chamam metaliteratura, à literatura que tem como centro a própria ideia de literatura. Nesse sentido, é o fim da tetralogia iniciada com Os Fantasmas de Pessoa e que continuou com Aonde o Vento Me Levar e As Sereias do Mindelo. Mas também acho que já disse isto antes e, depois, acabei por voltar a enredar-me.
2- Qual a ideia que esteve na origem do livro?
R- O livro parte da ideia de que o espaço fechado de um autocarro, ou de outro transporte público qualquer, pode funcionar como uma espécie de máquina literária, um sítio onde as histórias se contam e ouvem, levando os participantes a viajar para muito mais longe do que aquilo que o autocarro ou o metro permitem. Essa é a função do falso livro que o personagem principal carrega no autocarro: incluir todas as histórias que se queira inventar.
3-Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
R-Neste momento estou a escrever a resposta à pergunta anterior. Num sentido mais lato, estou na redacção de um jornal onde se espera que escreva notícias. Às vezes, à noite, ao fim do dia, ainda encontro ânimo para escrever outras coisas, e faço-o, que hão-de ganhar corpo e sair para a rua quando for o tempo certo.[correiodoporto.com]