"acho que Emerson escreveu algures que uma biblioteca é uma espécie de caverna mágica cheia de mortos. e esses mortos podem renascer, podem voltar à vida quando abrimos as suas páginas." [BORGES, Jorge Luis in Este ofício de poeta]
Quarta-feira, 3 de Julho de 2013
Na mesa dos poetas

 

Cesário Verde

José Joaquim Cesário Verde (Lisboa, 25 de Fevereiro de 1855 - 19 de Julho de 1886) é unanimemente considerado um dos precursores da poesia Portuguesa do século XX.

Embora não pudesse ser enquadrado em nenhuma das escolas poéticas dos países de língua portuguesa da sua época pode dizer-se que Cesário Verde estaria de alguma forma relacionado com as correntes estéticas do seu tempo. No interesse pela captação do real, nos seus quadros e figuras citadinos, concretos, plásticos e coloridos, é fácil detectar a afinidade ao Realismo. A ligação aos ideais do Naturalismo verifica-se na medida em que o meio surge determinante dos comportamentos. Se considerarmos o fato do poeta figurar plasticamente numa cena, poderia aproximá-lo, inclusive, do Parnasianismo e mesmo do Romantismo.

No seu estilo delicado, Cesário empregou técnicas impressionistas, com extrema sensibilidade ao retratar a cidade e o campo, que são os seus cenários predilectos. Evitou o lirismo tradicional, expressando-se de uma forma mais natural. Os ecos da sua obra são notórios nos poemas de Fernando Pessoa, parecendo o predecessor do heterónimo Álvaro de Campos de Opiário e sendo citado várias vezes por Alberto Caeiro.

 

De Tarde

Naquele pique-nique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

 

Cesário Verde

In O Livro de Cesário Verde, Lisboa, 1887

 

Este poema cantado por Pedro Barroso: 

 

Títulos disponíveis, deste autor, na biblioteca municipal.



publicado por bibliotecadafeira às 16:31
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