"acho que Emerson escreveu algures que uma biblioteca é uma espécie de caverna mágica cheia de mortos. e esses mortos podem renascer, podem voltar à vida quando abrimos as suas páginas." [BORGES, Jorge Luis in Este ofício de poeta]
Quarta-feira, 4 de Dezembro de 2013
Na mesa dos poetas

 

 

Afonso Lopes Vieira

(Leiria, 26 de janeiro de 1878 — Lisboa, 25 de janeiro de 1946)

Poeta português cuja poesia, próxima do saudosismo se inscreve num filão tradicional, fazendo de certa forma a transição entre a poesia neorromântica de fim-de-século e as correntes nacionalistas e sebastianistas do início do século XX, recuperando métricas, formas e temas tanto inspirados na literatura clássica como nos romanceiros ou na literatura popular.

  

Saudades de Portugal

 

1

Nunca como em Veneza
adoro a nossa pobreza
portuguesa;
as nossas casas caiadas,
as nossas praias salgadas,
os burricos berberes,
e na Batalha de pedras douradas
a saia pela cabeça das mulheres.

Ó Veneza oriental,
marítimo tesouro
de púrpura, de mármores e de ouro:
- em Portugal
rico só é o ceu que nos lá cobre.
Portugal teve o mundo - e ficou pobre.


2

Aquele romantismo de Veneza
ah! não, não acabou
enquanto um ruivo sol de dogareza
o Canal Grande todo iluminou.

Sirenetta d´Annunzio cobiçava
certa gôndola em flor;
e a sombra de Musset, no Danieli, lembrava
as cruezas de George, o amor e a dor.

Mas à varanda deste albergo Real
(diz lá, Poesia: onde é que moras tu?)
um hóspede contempla a luz ideal
sentado em almofada de cautchú.


3

Este lugar Anfitrite,
com seu capitão de Ílhavo,
que leva gasolina
a portos da Moirama
e às correntes mais vivas se abandona,
quanto mais me diverte
que o Roma e o Cap Arona!

Vamos na intimidade
do mar, com quem podemos conversar...
- Ó palaces horríveis p´ra viajar!
Coqueteiles de horror! Cadáveres pintados!
Banqueiros! Espiões de todos os Estados! -
Aqui vivo na tolda e ando salgado,
livre do mau-olhado,
e durmo sono fundo
sob as estrelas, té que rompa o dia.
Neste nosso veleiro
poderíamos dar a volta ao mundo
porque ia connosco a Ria
de Aveiro!...


4

Lavrador do Chão,
se semeio trigo
choro-me comigo
e não colho pão.

E se planto vinha
e trato o que planto,
que miséria a minha,
o meu vinho é pranto.

Lavrador do mar,
se semeio espuma
colho e ceifo bruma,
ponho-me a cantar!

Ó seara de vagas
em que os olhos ponho,
que bem que me pagas
em moeda de sonho!...

 

Afonso Lopes Vieira 

In “Onde a Terra se Acaba e o Mar Começa”

 

Titulos, deste autor, disponíveis na biblioteca municipal.



publicado por bibliotecadafeira às 17:00
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